domingo, novembro 05, 2006

 

As coisas existem........

As fotos podem ser chocantes, mas existem e infelizmente existem situações ainda muito piores.. Custa ver, não se fala, é realmente é muito mais fácil.
O texto abaixo foi publicado no blog http://vadiando.blogs.sapo.pt/ infelizmente aqui temos um testemunho na primeira pessoa de uma situação bem triste.

Obrigado amigo pela coragem que tiveste em partilhar connosco este teu momento.
Um grande abraço.












Confesso que o tema do ultimo texto que trouxe emprestado do blog do alentejano me afectou.... Muito mesmo, porque me trouxe à mente recordações com 15 anos e que hoje ainda me fazem verter lágrimas, especialmente em dias como o 1 de Novembro, em que passo o dia de campa em campa a levar flores e velas e amigos de outros tempos...
A eutanásia para mim deveria ser uma opção de quem sofre ou de quem pode, porque ama, decidir esse fim. E não digo isto de ânimo leve porque, há 15 anos atrás, quando a minha irmã teve um avc e morreu, se tivesse sobrevivido seria apenas um vegetal, perderia todas as funções que faziam dela uma mulher lindíssima , perderia o seu sorriso, perderia a fala, perderia a loucura saudável dos seus 20 anos...
E nós, eu e os meus pais, morreríamos todos os dias enquanto ela vivesse, por vê-la ali naquele estado, deitada numa cama provavelmente com um tubo a alimentá-la, certamente sem ver, sem sentir, sem gostar, sem amar, sem conseguir poder ser dona das suas necessidades mais básicas... E não vale a pena o argumento de que hoje em dia se recupera de um avc porque recuperam apenas aqueles que os têm ligeiros e é facilmente perceptível a dificuldade com que recuperam, agora imaginem um avc massivo...
Se ela tivesse sobrevivido, não nos assistiria o direito, porque a amávamos, de poder decidir terminar com o sofrimento dela? De poder, por assim dizer, "desligar a máquina", a quem tanto gostava da vida e por um fim a um estado em que não há volta, não há retorno? Não teríamos nós, os que a amavam, o direito de não querer morrer um pouco em cada dia porque ela estaria a morrer todos os dias? Seríamos egoístas por isso?
Ainda posso traçar outro cenário: imaginem a dor de uma mãe a ver a filha naquela situação, sabendo que ela nunca mais seria a sua menina que lhe dava algumas dores de cabeça, mas que nem era das piores, imaginem o que sentiria a minha mãe se tivesse de passar o resto dos seus dias cuidando de quem nunca lhe pudesse devolver um carinho, um beijo, agradecer uma festa, voltar apenas nem que fosse por breves instantes. Não teria a minha mãe o direito de, porque amava a sua filha, decidir que era tempo de parar com a agonia? Será que eu ainda teria mãe hoje?
"Foi melhor assim", foram as palavras de um familiar meu para mim, um médico analista que assistiu à autópsia. Na altura pareceram-me palavras tão cruéis para dizer a quem chorava lágrimas de sangue, demasiado cruéis , mas que hoje fazem todo o sentido, embora eu lamente profundamente que nós, caso ela tivesse sobrevivido, nunca pudéssemos demonstrar a minha irmãzita que a amávamos profundamente e que por tanto a amarmos lhe iríamos "desligar a máquina"...
O assunto é polémico, a lei dos homens é estúpida e o direito à vida ou opção de terminar com ela deveria pertencer a cada um, ainda que legalmente suportado num conjunto de pressupostos médicos, racionais, efectivos, reais, longe das ideias retrógradas e estúpidas da religião, no fundamento que cada um deve ser dono de si... Se morremos quando não queremos, porque não morremos quando queremos?
Choro... ainda choro hoje.... ainda choro muitas vezes pelas saudades que tenho dela... Mas, foi melhor assim...
A gente vê-se por aí...

Comments:
infelizmente existem... e só não sabe isso quem anda na vida a queixar-se de coisas parvas sem saber a sorte que tem...



resta-me deixar um carinho aos dois
 
é bastante comovente mas sou da opinião que quando já não devemos nada á vida devemos partir, quantos não desejam morrer por estarem a sofrer, por estarem sempre dependentes de alguem quantas!!!são muitas portanto...Bjokas alentejanas

Quando poderes aproveita para dar ca um polinho eheheheh.Bjs
 
quase que percebo a tua atitude em relação a este tipo de questões tão sensíveis. não é nada do outro mundo e isso percebe-se facilmente pelos comentários que se podem ler neste e noutros post's. todos temos opiniões sobre todos os assuntos, todos nos sentimos senhores da razão e das nossas opiniões. sobre este tema tão delicado também as temos: coitadinhos, não querem viver, estão a sofrer, a fazer sofrer os familiares. aconteceu-me a mim também, tantas vezes, pensar o mesmo. aconteceu-me depois conviver com pessoas "condenadas", alimentadas por tubos enfiados em furos no peito; pessoas que já não tinham veias em condições para lhes darem mais injecções para aliviar as dores ou dar medicamentos; homens com idade para serem meus pais ou meus avós; homens que choravam por o que lhes estava a acontecer; um senhor com 80 anos que nem me lembra o nome, agarrou-me a mao uma noite inteira enquanto chorava e gritava pela Mãe; quando as dores acalmaram, só falava em por-se bom, em voltar para a família e para a horta. outros completamente desfigurados por operações, pela radioterapia, pela quimioterapia. amputados de partes deles, partes que lhes cortaram e arrancaram para que pudessem viver mais umas horas, uns dias, uns meses, uns anos. o Tal Senhor de oitenta anos morreu na manhã a seguir, depois de ter gritado e chorado até à exaustão. pouco antes de morrer, dizia-me como tinha que se por bom, como aquela merda não o ia deitar abaixo.
sabes? em tantos casos (e não foram assim tão poucos como isso) ninca ouvi ninguém dizer que se queria matar, e acredita que grande parte sabia o que lhes ia acontecer, viam-se ao espelho e sabiam o que os esperava. nunca nenhum deles disse que se queria matar. a esperança de viver é inerente ao ser humano; só em estado de descompensação pura alguém pensa em tirar-se a vida.
é a natureza do Homem. tal como a do escorpião o fez morrer ao matar a rã, assim é a do Homem, lutar até acabar. não desistir enquanto o coração lhe bate e a alma não o larga. luta até ao fim.
Morrer assusta, sabias? a mim assusta-me imenso e não me acho cobarde nenhum por causa disso.

Rui
 
Partilho a tua opinião.Sou a favor da eutanásia! Deixo um abraço e votos de uma semana excelente.
Intemporal.blogs.sapo.pt
 
Uma historial real e comovente.

A dor de uns pais verem a sua menina partir, mas como foi dito, foi melhor assim.

Um beijinho
 
É muito triste e há feridas que o tempo não cura e há casos em que a eutanásia seria mesmo uma solução...

Beijinhos
 
O texto do Homem de Negro está lindíssimo... apesar do conteúdo.
Beijinho
 
Enfrentar a relidade é por vezes doloroso, ter a coragem de a enfrentar e relatar, é de louvar...
Parabens ao 'Homem de negro' pela coragem e parabens a ti pela forma como colocas aqui controvérsias, que nos faz muito bem pensar.
Baci.
 
Demasiado triste para comentar, boa semana.
 
já deixei o meu comentário no "vadiando"!

boa noite para ti!:)))
 
Isto foi algo indigesto...
 
Natureza do corpo humano é levada da breca, enquantos uns se agarram á vida outros tentam tirar a vida.
Existe situações que desejamos ir desta para melhor , julgamos nós , para nos livrarmos das dores ou de algo ainda mais grave.
O problema é do corpo humano que sofre e continua a sofrer que no fim de contas não resulta em melhoras , por vezes deseja-se a morte para não sofrer.
Mas por vezes assiste-se a pessoas que fingem no seu sentimento que leva á lagrima no canto do olho , que vivem do mimo , incertezas da vida.touaqui
 
por muito que doa, foi mesmo melhor assim.
 
Já deixei a minha opinião lá no canto do homem de negro.
Mas o comentario do boleta deixou-me a pensar.
Não seremos egoistas ao ponto de pensarmos que é melhor a outra pessoa morrer, para nós sim, aliviarmos o nosso sofrimento?
Mas nem quero pensar nisso, acho que não, acho que o nosso sofrimento está de mãos dadas com o doente que se encontra nesta situação. Doi-nos ver o sofrimento latente naquele olhar.
As vezes é melhor sair desta vida, assim, como também noutros casos o melhor é não nascer, mas isso já é outro assunto.

beijos
 
Olá...
Peço desculpa por usar este espaço que, não sendo meu, partiram de um texto de minha lavra, para agradecer as palavras que deixaram e também para deixar um abraço ao alentejano...
Queria apenas dizer à ana p que, apesar dessa dúvida que é perfeitamente pertinente, eu desligaria a máquina... Pelo muito que a amava...
Cumprimentos, companheiros, a gente vê-se por aí...
 
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